simbolismo

O labirinto é originalmente o palácio cretense do rei Minos, local onde estava encerrado o Minotauro, e de onde Teseu saiu graças ao fio de Ariadne. Daí retém-se principalmente a complicação do seu plano e a dificuldade do percurso.

O labirinto é, essencialmente, um entrecruzamento de caminhos, alguns dos quais não possuem saída e, constituem, assim, becos sem saída, através dos quais se tenta descobrir o caminho que conduz ao centro desta bizarra teia de aranha. A comparação com a teia não é exacta, pois esta é simétrica e regular, enquanto que a essência do labirinto é circunscrever, no menor espaço possível, o enredo mais complexo de atalhos, retardando, assim, a chegada do viajante ao centro que pretende atingir.

Os labirintos gravados no pavimento das igrejas eram a assinatura das confrarias iniciáticas de construtores e, igualmente, os substitutos da peregrinação à Terra Santa. É por isso que, por vezes, se encontra no centro o arquitecto ou o Templo de Jerusalém: o eleito, atingindo o centro do mundo ou o símbolo desse Centro. O crente que não podia realizar a peregrinação real, percorria o labirinto em imaginação até chegar ao centro, aos lugares santos: era o peregrino no local. Fazia o percurso de joelhos, por exemplo, dos duzentos metros do labirinto de Chartres.

O labirinto foi usado como sistema de defesa à porta das cidades fortificadas (fortalezas). Era traçado sobre maquetas das casas gregas antigas. Num caso como noutro trata-se da defesa de uma cidade, ou da casa, como se estivesse situada no centro do mundo. Defesa não apenas contra o adversário humano, mas também contra as influências maléficas. É de notar o papel idêntico do biombo colocado na álea central dos templos no mundo de influência chinesa, onde as ditas influências são tidas como se propagando apenas em linha recta.

A dança de Teseu, chamada dança dos grous, está evidentemente relacionada com a caminhada labiríntica. Ora, existe igualmente na China danças labirínticas que são danças de aves (como o passo de Yu), cujo papel não é menos sobrenatural.

Símbolo de um sistema de defesa, o labirinto anuncia a presença de algo de precioso ou sagrado. Pode ter uma função militar, para a defesa de um território, de uma aldeia, de uma cidade, de um túmulo, de um tesouro: apenas são aí admitidos aqueles que conhecem os planos - os iniciados. Possui uma função religiosa de defesa contra as investidas do mal: o mal é não apenas o demónio, mas também o intruso, aquele que está quase a violar os segredos, o sagrado, a intimidade das relações com o divino. O centro que protege o labirinto será reservado ao iniciado, àquele que, através das provas de iniciação (as sinuosidades do labirinto), se mostrar digno de aceder à revelação misteriosa. Uma vez atingido o centro, fica como que consagrado; introduzido pelos arcanos, está ligado pelo segredo. Mircea Eliade diz que "os rituais labirínticos sobre os quais se baseia o cerimonial de iniciação... têm justamente como objectivo ensinar ao neófito, no decurso da sua vida cá em baixo, a maneira de penetrar, sem se perder, nos territórios da morte (que é a porta de uma outra vida)...". De certa maneira, a experiência iniciática de Teseu no labirinto de Creta equivalia à procura das maçãs douradas do Jardim das Hespérides ou do Tosão de Ouro da Cólquida. Cada uma destas provas resumia-se, em linguagem morfológica, a penetrar vitoriosamente num espaço dificilmente acessível e bem defendido, no qual se encontrava um símbolo mais ou menos transparente da potência, da sacralidade e da imortalidade.

O labirinto podia ter também uma significação solar, devido à acha dupla, de que seria o Palácio, gravada sobre muitos monumentos minóicos. O Touro encerrado no labirinto é também solar. Talvez simbolize, nesta perspectiva, o poder real, o domínio de Minos sobre o seu povo.

Na tradição cabalística, retomada pelos alquimistas, o labirinto desempenhava uma função mágica, que seria um dos segredos atribuídos a Salomão. É por isso que os labirintos das catedrais, série de círculos concêntricos, interrompidos em determinados sítios, de modo a formar um trajecto bizarro e inextricável, era chamado Labirinto de Salomão. Para os alquimistas seria uma imagem do trabalho completo da Obra, com as suas dificuldades maiores: a da via que convém seguir para atingir o centro, local onde se trava o combate das duas naturezas; a do caminho que o artista deve tomar para sair. Esta interpretação junta-se a uma certa doutrina ascético-mística: a concentração sobre si mesmo, através dos milhares de caminhos das sensações, das emoções e das ideias, suprimindo qualquer obstáculo à intuição pura, e a chegada à luz sem se deixar prender pelos obstáculos do caminho. A ida e a volta seriam o símbolo da morte e da ressurreição espirituais.

O labirinto conduz também ao interior de si mesmo, em direcção a um espécie de santuário interior e oculto, onde se situa o que há de mais misterioso na pessoa humana. Pensa-se aqui no mens, templo do Espírito Santo, na alma em estado de graça, ou ainda nas profundezas do inconsciente. Um e outro apenas podem ser atingidos pela consciência que, depois de muitos obstáculos ou de uma concentração intensa, chega a esta intuição final onde tudo se simplifica como que por uma espécie de iluminação. É aí, na cripta, que se encontra a unidade perdida do ser que se teria dispersado na multidão dos desejos.

A chegada ao centro do labirinto, como ao fim de uma iniciação, leva a uma loja invisível que os artistas dos labirintos deixaram sempre no mistério ou, melhor, que cada um podia preencher segundo a sua própria intuição ou as suas afinidades pessoais. A propósito do labirinto de Leonardo d'Avinci, Marcel Brion evoca esta sociedade, composta por homens de todos os séculos e de todos os países, preenchendo o círculo mágico que Leonardo deixou em branco, porque não estava no desejo do seu espírito dar muitas explicações sobre o significado desse santuário central do labirinto.

O labirinto seria uma combinação de dois motivos: da espiral e da trança e exprimiria uma vontade muito evidente de figurar o infinito, sobre os dois aspectos que reveste para a imaginação do homem, i. e., o infinito em perpétuo devir da espiral que, pelo menos teoricamente, pode ser pensada sem acabamento, e o infinito do eterno retorno figurado pela trança. Quanto mais difícil se mostra a viagem, mais numerosos e árduos são os obstáculos, mais o adepto se transforma, e durante o percurso desta iniciação itinerante, adquire um novo ego.

A transformação do eu que se opera no centro do labirinto e que se afirmará no grande dia, no final da viagem de retorno, no fim desta passagem das trevas à luz, marcará a vitória do espiritual sobre o material e, ao mesmo tempo, do eterno sobre o efémero, da inteligência sobre o instinto, do saber sobre a violência cega.

Traduzido de Dictionnaire des Symboles, Jean Chevalier et Alain Gheerbrant, Paris: Robert Laffont/Jupiter, 1982.

*****

As igrejas de Sens, Reims, Auxerre, Saint-Quentin, Poitiers e Bayeux conservaram os seus labirintos. Na de Amiens via-se ao centro uma grande laje com uma barra de ouro e um semicírculo do mesmo metal incrustados, representando o nascer do sol acima do horizonte. Mais tarde, substituiu-se o dourado por um sol de cobre e este desapareceu por seu turno, sem nunca ter sido substituído. Quanto ao labirinto de Chartres, vulgarmente chamado la lieue (por le lieu, o lugar), desenhado sobre o pavimento da nave, compõe-se de uma série de círculos concêntricos que se encaixam uns nos outros com uma variedade infinita. No centro dessa figura via-se outrora o combate de Teseu com o Minotauro. É ainda uma prova da infiltração dos temas pagãos na iconografia cristã e, consequentemente, a de um sentido mítico-hermético evidente. No entanto, não há razão para estabelecer qualquer relação entre estas imagens e as famosas construções da Antiguidade, os labirintos da Grécia e do Egipto.

O labirinto das catedrais, ou labirinto de Salomão, é, diz-nos Marcelin Berthelot, "uma figura cabalística que se encontra no começo de certos manuscritos alquímicos e que faz parte das tradições mágicas atribuídas ao nome de Salomão".

Lembremos, de passagem, que o mais célebre dos labirintos antigos, o de Cnosso, na ilha de Creta, que foi descoberto em 1902 pelo Dr. Evans, era chamado Absolum. Ora, deve notar-se que este termo é vizinho de Absoluto, que é o nome pelo qual os alquimistas antigos designavam a pedra filosofal...

Fulcanelli, Le Mystère des Cathédrales, Paris: Jean Jacques Pauvert, 1964.

início | mitologia | etimologia